Lei municipal inconstitucional tenta impedir a fotografia na vila histórica. Haverá 'fotografaço' neste domingo, 19 de junho
Nevoeiro de Paranapiacaba. © 2009 Mario Amaya
A Vila Inglesa de Paranapiacaba, no topo da Serra do Mar em São Paulo, foi construída por engenheiros ingleses há quase 150 anos e marca o ponto final da subida da serra, a partir de Cubatão, da histórica São Paulo Railway – posteriormente conhecida como Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, atualmente uma linha de carga operada pela empresa de logística MRS. Por essa ferrovia desceu toda a riqueza do café produzida em São Paulo e subiu uma imensa leva de imigrantes – italianos, portugueses, japoneses, espanhóis, árabes – que foram decisivos para transformar o estado em potência econômica ao longo do último século.
Após o declínio da ferrovia como meio de transporte de passageiros, a vila inglesa – tombada pelo Patrimônio Histórico em níveis federal, estadual e municipal – caiu no abandono, tendo se mantido como um polo de turismo ecológico alternativo bem próximo à capital, situada a menos de 20 minutos da última estação de trem urbano em operação comercial, Rio Grande da Serra. Paranapiacaba situa-se dentro dos limites do município de Santo André, embora não tenha ligação direta por terra com a cidade.
Na quinta-feira, 16 de junho, o jornal Metro ABC publicou
matéria de capa denunciando a postura da prefeitura contra os fotógrafos que visitam o local. Uma lei municipal exige autorização prévia de uma semana para a fotografia e pagamento de uma taxa de 600 reais por dia por sessões fotográficas que possam ter uso comercial. Na prática, guardas municipais têm ordem de barrar qualquer fotógrafo portando qualquer câmera.
Reportagem de capa do Metro ABC que foi o estopim do movimento
A partir do Metro ABC, a história ganhou uma ampla audiência no Facebook e Twitter, onde repercutiu via boca-a-boca. A repercussão inspirou
André Americo, o fotógrafo que ilustrou a reportagem do Metro ABC, a
contar em seu blog todos os detalhes que apurou pessoalmente. Não poupou críticas pesadas à prefeitura pelo abandono crônico da vila e por sua exigência do pagamento de uma taxa que pode ser interpretada como uma maneira de inibir a divulgação da situação de que a vila sofre há muito tempo, sem que exista na atual administração uma política oficial para turismo sustentável ou programa de restauração arquitetônica.
A discussão no Twitter gerou um movimento intitulado
#NãoVisiteParanapiacaba. O tema ganhou também os nomes
#fotografaço e
#freeparanapiacaba, atingindo em questão de horas milhares de fotógrafos conectados às redes sociais. Por fim, foi fundada uma página no Facebook chamada
Free Paranapiacaba e logo a seguir saiu nota no site da
Rede de Produtores Culturais da Fotografia no Brasil e reportagem no site da
Folha de S. Paulo. Foi marcado um
'fotografaço' para meio-dia de 19 de junho, domingo, quando um grupo de fotógrafos-manifestantes entrarão na vila portando suas câmeras para fotografar e filmar, desafiando abertamente a política oficial do município.
Na opinião de um leitor da Folha, 'é razoável pagarem alguma quantia pelo uso comercial do espaço. Já para uso amador e jornalístico a fotografia não pode ser proibida, sob risco de violação de direito constitucional e cerceamento de liberdade de imprensa. Diz a Lei do Direito Autoral, Lei Nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, Art. 48: 'As obras situadas permanentemente em logradouros públicos podem ser representadas livremente, por meio de pinturas, desenhos, fotografias e procedimentos audiovisuais.'
A
Digital Photographer Brasil – que desde sua fundação, há um ano e meio, sempre colocou em questão os limites impostos arbitrariamente à fotografia pública por figuras de autoridade abusivas – apoia irrestritamente o movimento e o protesto. Nós entendemos que a lei citada acima é a única lei que de fato vale neste contexto, não podendo ser suplantada por regulamentos locais de intenção questionável. A Vila Inglesa de Paranapiacaba não é propriedade privada de quaisquer políticos ou funcionários públicos: é um patrimônio nacional.
Se algum fotógrafo for impedido de fazer fotos de qualquer lugar a partir da rua (logradouro público), ou de qualquer outra forma sofrer de figuras de autoridade alguma forma de abuso – ameaça de confisco da câmera, ordem para apagar as fotos feitas, ordem de entregar o cartão de memória –, vá a uma delegacia imediatamente e registre queixa-crime por constrangimento ilegal. E envie seu relato pessoal para o
editor para repercussão neste site e na revista. Ou este tipo de prática é rechaçado ainda em seu início, ou 'a moda pega' e se espalha pelo país, para prejuízo de todos nós.

Casa de máquinas da ferrovia funicular a vapor abandonada na Serra do Mar.
© 2009 Mario Amaya
Para chegar à Vila de ParanapiacabaDe carro: Via Anchieta até km 29 (placa para Ribeirão Pires). Entrar na SP-148 (Estrada Velha de Santos) até o km 33. Entrar na SP-31 (Rodovia Índio Tibiriçá) até o Km 45,5. Pegar a SP-122 até Paranapiacaba.
De trem e ônibus: Linha 10-Turquesa da CPTM, que parte da estação Luz, com conexão ao Metrô nas estações Luz (Linha 1-Azul), Brás (Linha 3-Vermelha) e Tamanduateí (Linha 2-Verde). Seguir até a estação terminal Rio Grande da Serra. O restante do percurso é feito de ônibus (integração): Viação Ribeirão Pires, linha 040 – Paranapiacaba. Os ônibus saem a cada hora, a partir das 4h30.
Outra opção de ônibus: ônibus municipais partem do Tersa (Terminal Rodoviário de Santo André), ao lado da estação da CPTM, a cada 40 minutos, a partir das 4h30 nos dias de semana, e nos fins de semana a partir das 5h.